A rua era deserta, fantasmagórica, escura. No fim, no meio das sombras Agatha não sabia o que fazer, se sentia em um beco sem saída e não tinha idéia de como tinha chego ali, estava assustada, com frio e fome, era uma noite muito fria aquela, sem lua e sem estrelas, e pela primeira vez na vida Agatha sentia falta do barulho da cidade, de todos aqueles carros e buzinas, do som das pessoas gritando, ‘há’ o que ela daria para estar em seu apartamento àquela hora, gozando de um bom livro, talvez ‘A cabana’ ou quem sabe ‘Morro dos ventos uivantes’ ou talvez até ouvindo uma boa musica clássica, riu sozinha diante daquele silencio e se assustou com o barulho que isso provocou, já sem forças ela encostou-se a uma das paredes sujas daquela rua sem saída, sentou-se fechou os olhos e uma lagrima escorreu de seus olhos ao se lembrar dos acontecimentos que a levaram até ali.
Agatha estava feliz àquela tarde, acabara de sair da faculdade e estava satisfeita com suas notas, os pais ficariam orgulhosos mais do que já eram, afinal vinha de uma família de classe media baixa e tinha conquistado muito na vida, tinha 23 anos e cursava psicologia na USP, tinha um lindo apartamento no centro da cidade de São Paulo, fazia um ótimo estagio no qual ganhava muito bem,e um namorado que ela amava muito, então quando o celular dela tocou e ao atender ouviu a voz de seu amado do outro lado da linha, seu coraçãozinho se encheu de alegria. Os dois sairiam àquela noite para um barzinho o qual havia acabado de inaugurar, eles faziam um ano de namoro naquele dia e Agatha se sentia uma vitoriosa por isso, ela amava muito ele e o considerava o homem de sua vida. Foi para casa, tomou um banho quente e se vistiu mais linda do que nunca, afinal era uma data especial, as oito em ponto Marcos estava em sua porta. Os dois saíram e se divertiram muito, ele havia exagerado na bebida e Agatha tinha aula no dia seguinte por isso mais ou menos as onze e quarenta ela já queria ir embora. Era fácil perceber que Marcos estava bêbado, mais a surpriendeu quando ele apertou seu braço com um pouco mais de força machucando-a mais foi quando ele lhe deu um tapa em seu rosto que Agatha começou a chorar e saiu correndo pelas ruas daquele bairro desconhecido ,o que pareceram por horas, até se deparar com àquela rua deserta, fantasmagórica e escura típica de filmes de terror, os quais ela tanto gostava de assistir com marcos. Abriu os olhos e percebeu que tinha voltado a chorar, levantou-se e começou a andar. Apressou-se em sair daquele beco escuro, não gostava dali, decidiu se empenhar para achar a saída daquele lugar, iria pegar um ônibus ou um táxi e iria esquecer aquela noite macabra.
Andando sem saber para onde ir, Agatha explorava as ruas, vielas e becos daquele lugar desconhecido, as ruas não tinham nome e sempre davam em lugares piores do que os que ela já havia saído. Parece que tudo acontece para ajudar, pois seu celular havia descarregado muito antes de ela ter a brilhante idéia de ligar para alguém. Morava sozinha em seu AP então provavelmente ninguém sentiria sua falta até o amanhecer. Todos sabiam que ela nunca faltava às aulas, então procurariam por ela, ela tinha amigos que a amavam. Mais será que eles a amavam tanto quanto Marcos a amava? Ela sentiu uma tristeza avassaladora voltar a reinar seu corpo. Nunca sairia dali. Morreria e ninguém nem sentiria sua falta. Pela primeira vez em muito tempo rezou. Ela não acreditava em Deus. Para Agatha o termo ‘Deus’ apenas significava alguém em que podemos agradecer pelas nossas conquistas que alias foi nossa culpa nos darmos bem não dele e criticar pelos nossos erros que alias também não são culpa dele. Agatha rezou. Mas não rezou para o ‘Deus’ de todo mundo. Rezou para Daniel. Daniel sempre foi ‘Deus’ dela. Foi com ele que ela sempre pode contar. Não conversava com ele já há algum tempo, desde os seus 16 anos quando tinha tentado se matar. Agatha fez uma oração rápida, se sentia desconfortável de rezar para ele depois de tanto tempo, após terminar prosseguiu a caminhada, até ouvir um barulho estrondeante naquele silencio mortal.
O barulho foi mesmo muito estranho diante daquele silencio, ela jurava ter ouvido um grito masculino xingando alguém ou alguma coisa. Esperançosa de não ser a única naquele lugar horrível Agatha correu em direção aos gritos e só quando se deparou com os olhos daquele homem de aparência assustadora percebeu a besteira que tinha feito, também percebeu que se arrependeria dessa atitude para o resto de sua vida. Logo que o homem deu um sorrisinho mal acabado para ela e deu um passo em sua direção, Agatha correu e correu sem olhar para trás, mas já sem esperança nenhuma de sair viva desta noite.
O homem não era muito alto, mais também não era muito baixo, não cheirava muito bem, era possível sentir o seu odor de longe, era muito sujo e de um corpo muito magro, tinha uma barba espessa e muito grande a qual ele não devia fazer já há algum tempo, um boca com quase nenhum dente e vestes imundas e rasgadas, Agatha não sabia de onde o homem tirava forças para correr atrás dela, mais ele estava quase a alcançando. Ele gritava e ria dos esforços inúteis dela para tentar fugir dele, era um riso horrível que dava náuseas em Agatha. Ela era até que boa corredora, só que estava cansada e com fome, alem de estar de salto, foi isso que a prejudicou. O maldito salto. Era um de seus modelos preferidos, preto com lindos brilhos prata e com um salto agulha de 4 cm e foi com esse modelito que ela caiu ao chão e o homem assombroso pousou em cima dela, sentiu sua roupa ser rasgada e as mãos do homem tocando seu corpo, sentia o membro enrijecido entre suas coxas, sabia que a qualquer momento seria estrupada e ficaria ali para morrer, sentiu-se entregando ao frio com seu corpo já seminu jogou suas mãos para trás já em um gesto de desistência Agatha bateu-as em um tijolo e num pensamento rápido pegou-o e o quebrou na cabeça de seu agressor ele cambaleou e caio ao lado dela zonzo e sem pensar em nada ela saiu correndo com o resto de roupa que lhe sobrava no corpo, não pegou a bolsa que estava a alguns centímetros dali, apenas se livrou do salto e correu o mais rápido que agüentou por mais ou menos uma hora sem parar para descansar ou olhar para traz, correu até se sentir segura e quando parou simplesmente caiu ao chão e desmaiou, num sono profundo com talvez mais pesadelos do que sua propia vida.
Agatha acordou e já era de manhã talvez até a tarde ela não sabia. Repassou o que tinha acontecido com ela nas ultimas talvez 12 horas. Brigara com Marcos, se perdera, quase fora estrupada, estava seminua deitada em uma rua de um lugar desconhecido, não tinha bolsa, não tinha dinheiro, não tinha nada. Será que alguém sentira sua falta? Será que alguém notara que ela havia sumido? Agatha decidiu-se naquele instante que morreria ali. Pois ela já não vivia mais, ela estava vegetando ali, ninguém a protegia, ela não conseguia proteger-se. Simplesmente fechou os olhos e imaginou o futuro que queria ter que sempre planejara ter, mas que na verdade nunca teria. Nunca terminaria sua faculdade de psicologia, nunca moraria na Europa, nunca se casaria com Marcos, nunca teria dois filhos dele, nunca mais leria nenhum livro ou ouviria nenhuma musica, nunca iria ver sua velhice feliz na Inglaterra vendo a neve cair. Ela era hipócrita por um dia ter pensado que conseguiria isso, ingênua, ela sempre teve a sempre teve a sensação de morte a rondado, mais nunca prestou muita atenção nela. Agatha sabia que não tinha nascido para mudar o mundo, ela havia nascido para morrer, pois a morte sempre foi à única coisa em que lhe deram certeza. Sem perceber ela havia voltado a um estado de mar de lagrimas.
Agatha ficara de uma a duas horas ali apenas chorando. Estava de olhos abertos mais não estava acordada, estava fora de si. Voltou a perceber as coisas quando achou ter ouvido um latido, ficou de ouvidos atentos para ver se ouvia mais alguma coisa, depois de mais ou menos cinco minutos ouviu seu nome, pensou por um estante que talvez fosse seu agressor, mais como ele saberia seu nome? Ele podia ter visto em seu RG. Então ela teve medo por esse pensamento. Sabia que não tinha forças para fugir dele novamente, seria estrupada e largada para morrer ali. Não faria muita diferença, afinal ela já estava morrendo, ele só aceleraria o processo lhe causando um pouco mais de dor. Ouviu seu nome novamente e reconheceu imediatamente a vos masculina que a chamava, era a voz de marcos, ela reconheceria essa voz em qualquer lugar e em qualquer circunstância, ela teve vontade de responder ‘sim meu amor, eu estou aqui. Venha me buscar me salvar desse pesadelo’ ela gritava isso em sua mente, mas não tinha forças para gritar de verdade. Reconheceu mais vozes. Havia as vozes de Flavia, de Mayara, de Fernanda, de Chuck, de Bruno, de Junior e de Gustavo. Todos os seus melhores amigos estavam ali, as vozes familiares deles alegrou seu coraçãozinho. Também ouviu vozes estranhas às quais ela não conhecia que logo imaginou ser de policiais. E voltou a ouvir os latidos dos cachorros e por mais incrível que pareça reconheceu o latido de Max, seu Pastor Alemão.
Agatha ficou parada por não ter forças de ir atrás das vozes. Ficou ali esperando ser encontrada, olhando para o inicio daquele beco dos filmes de terror esperançosa que alguém a encontrasse. Em meio de alguns minutos Max corria para seu encontro, e em meio a muitas lambidas como se tivesse consciência do que estava fazendo o cachorro começou a latir para que os outros a encontrassem e não demorou muito Marcos estava ali do lado dela vindo não se sabe de onde. Ele a abraçou, a beijou e em meio a tudo isso Agatha ouviu o discurso de marcos que ela pensou ser assim: ’Ai Agatha meu amor, o que aconteceu com você? Perdoa-me pelo amor de Deus. Você esta bem? O que fizeram com você? Eu estava tão preocupado. Já estamos a mais de 13 horas te procurando. Eu já estava pensando o pior. Quando achamos destroços de suas roupas, seus sapatos, sua bolsa completamente vazia. Ai meu amor me perdoa, por favor. Prometo nunca mais beber. Nunca, nunca vou encostar um dedo em você de novo. Nada disso teria acontecido se não fosse culpa minha. Um otário. Eu não vou me perdoar nunca por isso. Ai meu amor... ’Foi pelo menos isso que Agatha pensou ter ouvido.
Enquanto Marcos não parava de falar, Agatha viu seus amigos se aproximarem e a abraçaram todos juntos. Ela se sentia extremamente amada naquele instante. Perdoaria Marcos afinal ele não era culpado por ela ter fugido do barzinho que nem uma louca e se perdido. Agatha não agiria como qualquer outro se humano e botaria a culpa pelos seus erros em outros ou em ‘Deus’. A culpa era dela e ninguém mais tinha nada a ver com isso. Marcos a aninhou no colo e a levou para dentro do carro de policia agora se sentindo protegida e na presença de seu amado e de seus melhores amigos Agatha voltou a dormir, agora se sentindo muito segura.
Dois dias depois Agatha acordou no hospital, muitas pessoas foram visitá-la e com 2 semanas já estava de alta e voltou para casa, voltou ao seu ritmo normal, faculdade, estagio, namorado e apartamento. Ela estava se readaptando a tudo isso e devagar se livrando do trauma daquela noite. Ninguém ousava tocar no assunto e todos pensavam que ela teria um ataque de pânico a qualquer instante mais ela não teve.
Os anos se passaram e a vida de Agatha foi mudando, se casou com Marcos, estava terminando seu doutorado em psicologia quando engravidou de gêmeos, ela já não pensava que a morte era a única coisa certa em sua vida. Pois tudo estava correndo as mil maravilhas como ela sempre sonhara, atualmente morava na Inglaterra em uma casa linda com Marcos, tinha um belo jardim a casa. Havia montado um consultório de psicologia e Marcos era dono de varias empresa, ela era motivo de orgulho de toda a família. Seu nono mês de gravidez havia chego e quando olhou para a janela da maternidade na qual ela estava internada viu que estava nevando e ficou subitamente feliz com isso. Agatha adorava a neve e nessa manhã não seria diferente, naquela noite daria a luz a seus gêmeos, ela estava muito ansiosa para que isso acontecesse logo.
Quando foi 10 horas da noite Agatha desceu para a sala de parto. Não estava sendo um parto difícil, mais estaria mentindo se disse se que estava sendo fácil. Segurando forte a mão de Marcos, pensou como era uma mulher realizada, tinha 30 anos, um ótimo trabalho, um ótimo marido, e estava dando a luz a lindos filhos. E então ouviu o choro de seus bebes e sua vida se encheu de alegria, Agatha se sentia a mulher mais feliz do mundo inteiro.
Na manhã seguinte Marcos chegou cedo ao hospital maternidade, primeiro foi ver seus bebes depois iria até o quarto de Agatha para que os dois curtissem os filhos juntos. Foi quando a enfermeira lhe parou, pediu que se sentasse e lhe falou curto e grosso sem nenhuma dó:
-SRº Marcos, sinto ser eu a lhe informar sobre esse acontecimento trágico, mais é uma coisa extremamente recente, sua esposa morreu a cerca de uma hora com uma infecção hospitalar adquirida na hora do parto. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance para salva-la.
Depois se virou e foi embora como se tivesse acabado de falar que não tinha pão para o café da manhã por isso comeriam bolachas.
Após a enfermeira retirar-se Marcos ficou ali vegetando na cadeira do hospital enquanto absorvia a noticia.
‘A morte é a única coisa certa na vida de qualquer um. ’
‘Morrer é fácil. Complicado mesmo é viver e arcar com as conseqüências de nossas escolhas. ’